Por mais que se discutam datas, seus reais valores, significados e tudo o mais que possa caber nesse assunto, e por personalidade detestar data marcada, hora marcada, dia disso e dia daquilo, ou qualquer coisa que de leve se assemelhe a “obrigação de”, devo dizer que as datas de finais de ano sempre tiveram um significado lúdico e fantasioso para mim.
Na minha infância, isso há trinta e poucos anos atrás, fui privilegiada por pais, nesse caso, mais especificamente por uma mãe que bebia do mundo. Morávamos em Recife, então “cidade pequena, porém decente”.Televisão colorida era a grande novidade tecnológica, e nós colocávamos papel celofane colorido para que ela saísse do preto e branco e adquirisse uma outra coloração! Bons tempos.
A programação da TV chegava do eixo Rio-São Paulo com alguns dias há mais de diferença.
Ir a Penedo, na beira do Rio São Francisco era uma viagem do outro mundo...Levávamos horas para chegar.
Meu pai representava (até hoje representa) uma firma de aparelhos topográficos da Suíça, e por isso ia com certa freqüência àquele país, inclusive morando lá por uns tempos.
Minha mãe, mulher com antenas parabólicas afinadíssimas e com sede de conhecimento, já nessa época, acompanhava meu pai em suas constantes viagens a Europa.
Fomos criados, meio que peixes fora d’água, pois a cada viagem de meus pais, minha mãe retornava cheia de entusiasmo com a cultura do mundo lá fora, e criava seus filhos cheios de novidades.
Lembro-me bem, que ela criava cardápios da semana culturais. Comíamos as comidas típicas de determinado país, ela nos ensinava algumas palavras do idioma, contava suas histórias, costumes, como eram as crianças. Nós, pequenos, ficávamos encantados com tantas novidades.
Uma vez ela nos vestiu de japoneses. Os quimonos eram duas toalhas de banho: Uma enrolada na cintura e outra passada sobre os ombros, e traspassada na frente. Era uma maravilha. Não queríamos mais retirar nossos trajes japoneses!
Dentro desse espírito, e com muitos amigos feitos mundo a fora, os finais de ano eram datas mais do que esperada por nós. Não pelos enfeitas da casa, ou presente de Papai Noel, pois fomos criados dando valor a outras coisas, mas por uma caixa que religiosamente nos chegava em meados de Novembro.
Vinha da Suíça, toda embalada, e com cheiro de Europa.
Adelaide, amiga suíça de minha mãe, nos mandava preciosidades. Ela reunia ali dentro todo o ritual que uma criança de sua terra fazia nas festas Natalinas. Vinha estrela de vidro para pendurar nas janelas, meias de lãs para a lareira (que lareira?) lembrancinhas para nós, doces típicos da época... E o principal, aquilo que minha mãe todo ano fazia suspense, e nós ficávamos apreensivos pela sua aparição: Um calendário. Não um calendário qualquer. Mas um que era uma cartolina grande, com uma cena natalina bem européia, e com 25 janelinhas, que eram abertas uma a uma nos dias de Dezembro. Aquilo era um sonho...Brigávamos eu e meus dois irmãos para ver quem abriria as janelinhas, quem se acordava primeiro...Os calendários de Adelaide eram maravilhosos.
Essa lembrança sempre andou comigo, e todo final de ano, eu me lembro do calendário. Sonhava em ter um Natal com neve, com aqueles enfeites maravilhosos, com meias e lareiras, com frio, em comprar um pinheiro de verdade para enfeitar...
Os anos se passaram e fui eu um final de ano para uma terra maravilhosa, de uma luz encantadora, de cheiros espetaculares...Era Dezembro, fazia um frio de trincar os dentes, mas o céu era de um azul verão extraordinário. Passaria um mês por lá, e coincidiria com o Natal. Não criei expectativa, o calendário estava guardado e adormecido em algum lugar da memória.
Os dias foram passando, e o clima de Natal começou a chegar.
Primeiro, fui surpreendida com a notícia. “Precisamos sair para comprar nossa árvore”. Meus olhos pularam, meu coração começou a bater descompassado. Era aquilo mesmo que eu estava ouvindo?.Compraríamos uma árvore de verdade? Não cabia em mim...fiz questão de ir para ajudar na compra da árvore. Escolher, carregar, ou qualquer tarefa que sobrasse para mim....
Como se os deuses estivessem me ajudando, a sala na qual a árvore ficaria tinha uma lareira, bela, já com os preguinhos para as meias!
Meu calendário de Natal estava se formando, e eu, como criança boba estava novamente abrindo janelinhas, pois a cada dia tinha uma novidade.
Quando eu achava que ele já estava completo, falaram-me de preparar “O Nascimento”. Para isso precisávamos colher musgos para enfeitar.
O Nascimento, que para nós é Lapinha ou Presépio, era de uma construção bem complexa, pois além das figuras de Maria e José, dos Reis Magos e do Menino Jesus, tinha toda uma população de bonecos, e um cenário incrível , com céu estrelado, riachos com quedas d’água, cacimbas, musgos maravilhosos nos jardins, montanhas feitas com casca de árvore.Um sonho!
Nossa noite de Natal foi divina, divina mesmo!
Nesse dia, tive certeza que Papai Noel existe, e que meu calendário fantástico me guiou até ali.
Hoje, já próximo de mais um final de ano, trago comigo o calendário e o Natal do “Nascimento”.
Aos meus amigos Dona Andorinha e Sr. Capitão, por me darem esse Natal maravilhoso.
A minha mãe, por suas “viagens” extraordinárias.
Com amor
Matilde Rodrigues
Matilde por Leonardo Cribari
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
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2 comentários:
Ui, que coisa linda, querida! Estou arrepiada até a alma e com os olhos rasos d´água. Ando tão emotiva!
E que saudade daquele Natal tão lindo!
Este será o último que passamos nesta casa e a nostalgia já me assaltou!
ando escutando música clássica às alturas, as plantas já estão dentro do invernadeiro, já quero sair pra comprar a árvore e montá-la, só para que demore mais enfeitando a sala e nossos corações!
Ai, Ai.... acho que voi chorar!
Que forma linda de me apresentar a sua mãe...fiquei emocionada e imaginando a delícia dessas aventuras que ela passava para vocês...bjos de sempre, amiga.
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